sábado, 29 de julho de 2017

Envelhecemos Quase Só por Fora. E Ainda Bem!


Olhaste-me como se ainda fossemos adolescentes e não tivessem passado vinte e muitos anos.


Também gostei de entrar nesta tua "peça", ser a personagem que emparelhava contigo. Esquecer-me de tudo o que entretanto tinha vivido, uns dias bem outros mal.

Quem é que afinal pretendíamos enganar? Ninguém... Gostávamos sim, de puder trocar as voltas ao tempo, que nos trás cabelos cinzentos, rugas... e dores aqui e ali.

Quem bom sentir que as tuas mãos continuam macias. Talvez seja do creme que usas. Ainda bem. Quem bom beijar-te a fingir que só tinha dezoito anos e sentir algo meu a crescer e a tocar-te na barriga...

terça-feira, 27 de junho de 2017

Encantavas-me e Assustavas-me com a tua Rebeldia...


Tanto me encantavas como me assustavas com a tua rebeldia. Todos diziam que saías à tua avó.


Sim, essa mulher deslumbrante, que foi a primeira da Vila a conduzir um automóvel e a ser demasiado independente, ao ponto de assustar quase todos os pretendentes...

O teu avô foi o único que teve coragem de "enfrentar a fera". Talvez pensasse que a podia domar, mesmo que lhe parecesse uma tarefa impossível. 

Contra todas as previsões foram felizes, tiveram seis filhos e 10 netos.

Tu não a imitaste neste campo. Dois casamentos, zero filhos e muitas dores de cabeça...

Cruzámos-nos na semana passada. Piscaste-me o olho e eu acenei-te. Depois saltaram as perguntas do costume: «quem é, quem é...» E eu disse apenas o teu nome, «é a Dulce».

segunda-feira, 29 de maio de 2017

O Gosto de Sair Para a Rua Sozinha...


Não me incomodava por aí além essa sua mania pouco feminina de andar sozinha pela rua.


Mas era estranho o seu gosto de sair de casa e dizer que ia dar uma volta pelo mundo...

Chamava-lhe vagabunda e ela sorria. Outras vezes chamava-me e pedia-me para colar o meu corpo ao dela e dizer que a amava.

E depois partia...

Hoje seria uma maluquice muito mais perigosa, por que fomos perdendo as ruas...

sexta-feira, 28 de abril de 2017

A Mulher que se Esquece do Tempo...


Nunca chega a horas.


Diz que não faz de propósito. Esquece-se do tempo...
Eu acredito, mesmo que seja mentira.

Não é assim tão difícil esquecermos-se que existem relógios.

Mas é muito chato entrar no cinema minutos depois da fita começar, estar a incomodar os outros no escuro e a tapar as legendas.

Sou daqueles que acham que ninguém devia entrar depois dos espectáculos começarem, mesmo que tivessem bilhetes nas mãos.

Acredito que se isso acontecesse uma vez à donzela, ficar à porta, perdia o hábito de se esquecer do tempo...

terça-feira, 28 de março de 2017

Quando o Casamento é uma Prisão


O casamento é uma prisão.


Palavra de quem casou uma vez e ainda aguentou três anos de "cárcere".
Dia após dia, perdia mais um metro de liberdade.
Quando dei por mim, para beber uma cerveja com os amigos, tinha de mentir.

Até que um dia olhei-me ao espelho e dei um grito mudo: «CHEGA!»
E chegou.

Tenho tido vários relacionamentos, que  normalmente acabavam quando me começavam a "prender", quando me queriam transformar em mais uma "mobilia" de casa.

Talvez seja um desses casos que não nasceu para casar. 
É por isso que uma vez chegou.

Devo fazer menos sexo do que devia, mas não se pode ter tudo... embora a partir de certa altura do casamento, as dores de cabeça aumentem, e o corpo seja utilizado vezes demais como chantagem...

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Porque me Encheram de Perguntas...


Encheram-me de perguntas que não soube responder.


Não sabia ao certo porque tinhas aceite aquele lugar de tantos homens e antes de apenas uma mulher.

Na segunda reunião fiquei quase a teu lado. Foi por isso que vi o teu olhar cansado e ouvi o teu silêncio, enquanto os homens do meio esgrimiam os mesmos argumentos de sempre.

Quando falaste, foste serena e sabida, mostrando o melhor da essência feminina.

Só o facto de não pegares em armas para lutares com eles, está a desarmá-los. Não conhecem este tipo de luta e quase que espumam pela boca. 

É por isso que me enchem de perguntas, que eu também não sei responder. 

Fico dentro do meu silêncio a pensar que na cama não há chefes, apenas vontades para satisfazer prazeres...

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

A Sexta Mulher


Conhecia o homem de vista mas estava longe de imaginar que já tinha casado cinco vezes e que se preparava para o sexto, com a mulher que estava numa mesa afastada e era o centro das atenções.


No bairro todos o tratavam por "cabrãozinho", davam-lhe palmadinhas nas costas enquanto lhe contavam anedotas do piorio sobre cornos.

Ele? Ria com gosto.

Eugénio conhecia-o desde sempre e há muito que percebera que ele era um cabrão militante. Por saber que as cinco mulheres o tinham traído com amigos, dizia que ele até os devia convidar para entrarem no quarto (entre muitas ordinarices). Foi por que esfregou o bigode e disse que a sexta era para ele.

Foi risota geral.

A "sexta" mulher continuava serenamente a aproveitar o Sol de Janeiro, longe de imaginar, que até já tinha um candidato a amante, sem sequer ser ouvida ou achada.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Felizmente as Mulheres Ficam Bonitas Mais Tempo


Foi bom ver-te, mesmo que tenha sido num talho, onde entrei quase por entrar.


Observei-te com interesse, da mesma forma que vi o homem que te atendeu, quase babado.

Acho que sim, as mulheres conseguem segurar a beleza por cada vez mais tempo.
A sua independência também influi nisso. Os homens e os filhos deixaram de ser obstáculos para a manutenção do bom ar, da elegância.

Não falámos, provavelmente  porque o nosso conhecimento fez de conta que foi apagado nas nossas memórias.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Apartamento com Vista para o Sol


O orgulho do nome caiu em desgraça no fim da adolescência, quando começaram a gozar com a parte "da cunha", essa instituição nacional, que os alemães e suecos fingem ser uma invenção e prática dos povos sulistas.



Foi remédio santo. Cresceu e esqueceu o "da cunha", que só usa nas reuniões de famílias com pergaminhos, que sente serem uma coisa "a brincar". Sim, brincar aos ricos falidos, que vivem em apartamentos citadinos mas falam das quintas que nunca conheceram e das casas de verão.

Mesmo assim ela e as amigas continuam com as mãos cheias de aneis, que só não são verdadeiros porque cada vez há mais gatunagem nas ruas...

sábado, 15 de outubro de 2016

Às Vezes Apetece-nos Fugir, mas não Conseguimos...


Às vezes queremos fugir, mas não conseguimos...


Foi o que me aconteceu quando te vi sentada na esplanada, a carpir a solidão dos quarenta ou outra coisa qualquer. 

A última vez que conversámos ficámos assim para o chateado. Pelo menos nunca mais telefonaste ou fizeste-te aparecida nas ruas que percorriamos.

Acho que queria evitar qualquer cena triste, qualquer provocação, ou até agressão.

Nós humanos somos mesmo esquisitos. Ou estúpidos, parece-me que fica melhor.

Mas ainda bem que não mudei de passeio, porque assim que me viste sorriste, não sei de quê, mas era de qualquer coisa boa. E não da nossa última conversa. Acabei por beber o café na tua mesa. Não falei muito mas ouvi bastante. Precisavas muito de falar, de dizer mal de tudo e de todos (desta vez escapei...).

O mais estranho foi comportares-te como se nunca nos tivéssemos chateado, como se estivéssemos ali no dia anterior, com a mesma conversa de "partir isto tudo".

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Trás-os-Montes não é o Circo


É difícil começar a falar de um lugar que quase não conheço, porque sempre foi o mais longe do "meu mundo português".


O pai saiu de lá assim que pode, sem muita vontade de voltar.
Nem nunca passei lá as férias que devia, fui meia-dúzia de vezes à festa da aldeia e lembro-me de ficar todo lambuzado com os beijos das velhas, vestidas quase todas de negro.

Mesmo com todo este "desamor" fui capaz de defender todas as mulheres daquela região pobre, com problemas maiores que no Sul, por exemplo, por nunca se terem libertado do poder clerical. Isso aconteceu há uns bons vinte anos.
Estava numa sala de trabalho e uns "estrangeirados da treta" (continua a ver-se muito disso neste país, gente que gosta de falar do que não sabe nem conhece...) começaram a inventar factos, quando chegaram a Trás-os-Montes, encheram as mulheres de bigodes de pelos nas axilas e pernas.
Farto daquela conversa ordinária, perguntei-lhes se alguma vez tinham estado naquela região. Olharam uns para os outros e nenhum teve coragem de dizer que sim, de mentir.
Foi então que lhes disse que conhecia as mulheres de Trás-os-Montes e não tinham aquelas características. 
O silêncio só se quebrou quando eu acrescentei que a única mulher parecida que tinha visto foi num cartaz de circo e essa até tinha barba.

Lá voltaram os sorrisos, mesmo que alguns fossem amarelos.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A Minha Itália...


Não sei de onde veio esta minha maneira de ser mais próxima os italianos que dos portugueses.


Gosto de falar alto e de contar com a ajuda dos braços e das mãos. Não sei se isto tem alguma coisa que ver com a anedota que me habituei a ouvir desde a infância contada pelo pai, do italiano que caiu ao mar no Mediterrâneo e mesmo sem saber nadar conseguiu chegar a terra... Quando lhe perguntavam como se salvara, mexia os braços e dizia: «parlando, parlando...»

Mas acho que pior que falar alto e ser ajudado pelos braços e as mãos é a minha outra parte, este dizem que também é espanhola, de olhar com as mãos.

Quando gosto de uma mulher, gosto de a sentir, gosto de lhe mexer, de andar com as minhas mãos a descobrir curvas, mesmo que seja apenas nos ombros ou nos braços.

Muitas donzelas não gostam destes toques. Umas têm medo de "desafinar", outras acham que são "peças de fruta", para escolher apenas com os olhos...

Toda esta conversa me fez lembrar a Esmeralda, essa mulher diferente, que não é de ninguém e é de toda a gente, que gosta de ser pesada com os olhos e com as mãos...