quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

A Sexta Mulher


Conhecia o homem de vista mas estava longe de imaginar que já tinha casado cinco vezes e que se preparava para o sexto, com a mulher que estava numa mesa afastada e era o centro das atenções.


No bairro todos o tratavam por "cabrãozinho", davam-lhe palmadinhas nas costas enquanto lhe contavam anedotas do piorio sobre cornos.

Ele? Ria com gosto.

Eugénio conhecia-o desde sempre e há muito que percebera que ele era um cabrão militante. Por saber que as cinco mulheres o tinham traído com amigos, dizia que ele até os devia convidar para entrarem no quarto (entre muitas ordinarices). Foi por que esfregou o bigode e disse que a sexta era para ele.

Foi risota geral.

A "sexta" mulher continuava serenamente a aproveitar o Sol de Janeiro, longe de imaginar, que até já tinha um candidato a amante, sem sequer ser ouvida ou achada.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Felizmente as Mulheres Ficam Bonitas Mais Tempo


Foi bom ver-te, mesmo que tenha sido num talho, onde entrei quase por entrar.


Observei-te com interesse, da mesma forma que vi o homem que te atendeu, quase babado.

Acho que sim, as mulheres conseguem segurar a beleza por cada vez mais tempo.
A sua independência também influi nisso. Os homens e os filhos deixaram de ser obstáculos para a manutenção do bom ar, da elegância.

Não falámos, provavelmente  porque o nosso conhecimento fez de conta que foi apagado nas nossas memórias.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Apartamento com Vista para o Sol


O orgulho do nome caiu em desgraça no fim da adolescência, quando começaram a gozar com a parte "da cunha", essa instituição nacional, que os alemães e suecos fingem ser uma invenção e prática dos povos sulistas.



Foi remédio santo. Cresceu e esqueceu o "da cunha", que só usa nas reuniões de famílias com pergaminhos, que sente serem uma coisa "a brincar". Sim, brincar aos ricos falidos, que vivem em apartamentos citadinos mas falam das quintas que nunca conheceram e das casas de verão.

Mesmo assim ela e as amigas continuam com as mãos cheias de aneis, que só não são verdadeiros porque cada vez há mais gatunagem nas ruas...

sábado, 15 de outubro de 2016

Às Vezes Apetece-nos Fugir, mas não Conseguimos...


Às vezes queremos fugir, mas não conseguimos...


Foi o que me aconteceu quando te vi sentada na esplanada, a carpir a solidão dos quarenta ou outra coisa qualquer. 

A última vez que conversámos ficámos assim para o chateado. Pelo menos nunca mais telefonaste ou fizeste-te aparecida nas ruas que percorriamos.

Acho que queria evitar qualquer cena triste, qualquer provocação, ou até agressão.

Nós humanos somos mesmo esquisitos. Ou estúpidos, parece-me que fica melhor.

Mas ainda bem que não mudei de passeio, porque assim que me viste sorriste, não sei de quê, mas era de qualquer coisa boa. E não da nossa última conversa. Acabei por beber o café na tua mesa. Não falei muito mas ouvi bastante. Precisavas muito de falar, de dizer mal de tudo e de todos (desta vez escapei...).

O mais estranho foi comportares-te como se nunca nos tivéssemos chateado, como se estivéssemos ali no dia anterior, com a mesma conversa de "partir isto tudo".

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Trás-os-Montes não é o Circo


É difícil começar a falar de um lugar que quase não conheço, porque sempre foi o mais longe do "meu mundo português".


O pai saiu de lá assim que pode, sem muita vontade de voltar.
Nem nunca passei lá as férias que devia, fui meia-dúzia de vezes à festa da aldeia e lembro-me de ficar todo lambuzado com os beijos das velhas, vestidas quase todas de negro.

Mesmo com todo este "desamor" fui capaz de defender todas as mulheres daquela região pobre, com problemas maiores que no Sul, por exemplo, por nunca se terem libertado do poder clerical. Isso aconteceu há uns bons vinte anos.
Estava numa sala de trabalho e uns "estrangeirados da treta" (continua a ver-se muito disso neste país, gente que gosta de falar do que não sabe nem conhece...) começaram a inventar factos, quando chegaram a Trás-os-Montes, encheram as mulheres de bigodes de pelos nas axilas e pernas.
Farto daquela conversa ordinária, perguntei-lhes se alguma vez tinham estado naquela região. Olharam uns para os outros e nenhum teve coragem de dizer que sim, de mentir.
Foi então que lhes disse que conhecia as mulheres de Trás-os-Montes e não tinham aquelas características. 
O silêncio só se quebrou quando eu acrescentei que a única mulher parecida que tinha visto foi num cartaz de circo e essa até tinha barba.

Lá voltaram os sorrisos, mesmo que alguns fossem amarelos.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A Minha Itália...


Não sei de onde veio esta minha maneira de ser mais próxima os italianos que dos portugueses.


Gosto de falar alto e de contar com a ajuda dos braços e das mãos. Não sei se isto tem alguma coisa que ver com a anedota que me habituei a ouvir desde a infância contada pelo pai, do italiano que caiu ao mar no Mediterrâneo e mesmo sem saber nadar conseguiu chegar a terra... Quando lhe perguntavam como se salvara, mexia os braços e dizia: «parlando, parlando...»

Mas acho que pior que falar alto e ser ajudado pelos braços e as mãos é a minha outra parte, este dizem que também é espanhola, de olhar com as mãos.

Quando gosto de uma mulher, gosto de a sentir, gosto de lhe mexer, de andar com as minhas mãos a descobrir curvas, mesmo que seja apenas nos ombros ou nos braços.

Muitas donzelas não gostam destes toques. Umas têm medo de "desafinar", outras acham que são "peças de fruta", para escolher apenas com os olhos...

Toda esta conversa me fez lembrar a Esmeralda, essa mulher diferente, que não é de ninguém e é de toda a gente, que gosta de ser pesada com os olhos e com as mãos...

sábado, 20 de agosto de 2016

A Outra Itália...


O jantar era quase de família, embora estivesse longe dos velhos tempos.


Quando me chamaram a atenção de que estava a falar alto demais, lembrei-me dos meus "amigos italianos", do bom que é falarmos alto e com as mãos e os braços.

Não podia imaginar que fosse tão importante "o politicamente correcto" numa mesa de amigos e familiares, que uma mulher pudesse ficar tão incomodada com os "trogloditas" que falavam alto e ao mesmo tempo. Ainda por cima se chamava Giovanna (faz questão de assinalar que se escreve com dois enes).

Ainda estranhei mais quando ela começou a dizer maravilhas da cidade de Roma, quando se começaram a contar histórias de viagens...

Foi quando me lembrei que existem as itálias que quisermos, conversar é como fazer filmes ou escrever livros, cada um conta o que lhe apetece. 

quarta-feira, 8 de junho de 2016

A Vingança Servida a Quente


Depois de cinco anos de vida em comum, a partilharem a mesma cama e a mesma casa, pareceu-me estúpido o desabafo  daquela mulher, que a sorrir e a fumar, disse para toda a gente ouvir que o marido cheirava mal.



Não me deve ter visto. Ou então fingiu. Claro que não ia dizer nada ao marido, que tinha saído de casa dois meses antes.

Se ele ali estivesse talvez lhe desse um estalo e era capaz de lixar a vida, como o filósofo que casou com a apresentadora de programas de entretenimento televisivos.

Nós somos uns "toininhos" à beira destas mulheres vingadoras, que são capazes de tudo, por despeito e amor ferido.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

O Álcool Dá Sempre Jeito, em Todas as Idades...


Não são só os adolescentes que precisam de utilizar o álcool como principal elemento de descontracção. 


Foi por isso que desculpei a tentativa de beberes mais que a conta, para conseguires enfiar-te na cama comigo.

Quando te disse que te preferia sóbria, sorriste quase sem jeito.

Só não estava à espera que me contasses muito mais que queria saber da tua vida. Em vez de ficar mais descontraído, senti-me estranho, quando disseste que há catorze meses que não estavas sozinha com um homem.

Fico a pensar que já não tenho idade para histórias difíceis, ou pelo menos finjo...

terça-feira, 12 de abril de 2016

Cartas que se Perderam no Tempo


Encontrámos-nos numa superfície comercial, eu com um carrinho de plástico pequeno e tu com dois grandes acompanhada pelo resto da família, um gajo e dois rapazes.

Olhámos um para o outro e trocámos um sorriso. Não sabia ainda quem tu eras, apenas que me eras familiar. Já num outro corredor, consegui recuar mais de vinte anos e oferecer-te um nome e tudo.


Estava na peixaria quando me apareceste por detrás, desta vez sozinha e com vontade de falar, enquanto as funcionárias tiravam as tripas e as escamas ao peixe.

Trocámos meia dúzia de banalidades até me disseres que ainda tinhas as minhas cartas guardadas na casa dos teus pais. Eu sorri, incapaz de dizer alguma coisa sobre a tua correspondência, que se perdera no tempo. Não sei onde estarão. Talvez em alguma caixa de papelão no sótão dos meus pais, se entretanto não viajaram para algum ecoponto.

Depois apareceram os teus filhos e voltámos a ser as outras pessoas que nos tornámos...

domingo, 13 de março de 2016

O Número Enigmático


Recebi uma mensagem e respondi com um enigmático, 35.


Foram os dias que ela demorou a dar sinal de vida.

Demorou mais três a telefonar (desta vez com voz), para desmontar o mistério.

E eu disse-lhe a verdade, que fora o tempo que ela demorara a responder ao meu convite para ir ao fim e voltar.

Não se lembrava de nada disso.

Pudera. Há mulheres que comem doses industriais de queijo. E há também mulheres mais lentas que outras...

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O Verbo Fingir no Feminino


Nos primeiros tempos fingem-se modernas.


O problema é sempre o que vem depois. Volta-se ao antigamente, querem um compromisso. Afinal não acreditam nas "amizades coloridas"...

Tudo é posto em causa. Descobrem que querem um homem a tempo inteiro e não apenas nas horas mortas.
Falam de sinceridade, de fidelidade e outras coisas que rimam com verdade.

Quando já somos gente viajada, não nos incomodamos muito. 

Estamos fartos de saber que a mentira sempre foi meio caminho para qualquer coisa. de parte a parte.

Só elas fingem não saber que a partir dos trinta é proibido falar em inocência.