segunda-feira, 7 de maio de 2007

Escolher a Rua Como Morada


Nunca é uma escolha voluntária, é quanto muito um voluntariado forçado...
Mas o que é facto, é que o clube dos "sem abrigo", é cada vez mais numeroso nas ruas de Lisboa.
Grande parte das pessoas com quem nos cruzamos têm idade avançada e são na maioria, homens, sem presente, sem futuro... e que fingem não ter passado.
Os mais jovens, são quase todos toxicodependentes. Sobrevivem com uma única preocupação, arranjar dinheiro para comprar um quarto de grama do "elixir da falsa felicidade".
Talvez sejam a melhor caricatura da sociedade actual, cada vez mais egoísta, individualista e solitária...
Às vezes pergunto: «O que pensarão as suas famílias, desta escolha? Aprovam? São indiferentes? Fingem não saber de nada?»
É difícil concluir o que quer que seja.
O Estado e muitas instituições de carácter social lembram-se deles apenas no Natal.
Eles também se devem lembrar bastante desta época, porque além de lhe oferecerem banho, roupa, comida... levam com toneladas de hipocrisia em cima.

Sei que este texto não é de Primavera, é mais de Outono ou Inverno... a culpa foi da fotografia de Arnaldo Sousa, do homem deitado no parapeito das escadas do Teatro D. Maria II, no Rossio...

6 comentários:

Luis Eme disse...

Talvez eles sejam mais livres do que nós, apesar das privações e do desconforto que passam...

Maria P. disse...

Mas são textos destes que fazem faltam, apesar da Primavera que cada um entende à sua maneira.

Um abraço*

Minda disse...

Vim aqui parar para agradecer a visita ao meu cantinho. E estou, deveras, surpreendida.

Adorei as fotos, os textos... e a mensagem que cada um carrega. PARABÉNS!

Sobre o tema em si, deixo um poema que escrevi há uns tempos atrás sobre uma história verídica que me deixou muito impressionada e, ainda hoje, recordo emocionada.
Chama-se "Esquina da Indiferença":

Tinha nos olhos negros
o reflexo da solidão.
Na magreza do corpo envelhecido,
as rugas da alma nua.
A barriga, em vez de pão,
enchera-a com sopa de nada e ilusão.
Dormia ali no chão, frio e sujo,
na esquina da indiferença
da cidade crua.
Aos corações ausentes,
de passos apressados
e vidas sem sentido,
estendia as mãos abertas.
Lábios cerrados,
num acto de dignidade ferida.
Ao lado da caixa de cartão vazia
um apelo escrito em papel pardo:
«Peço uma moeda e um livro – sou mudo,
tenho fome e preciso de companhia.
Obrigado.»

(a propósito: ofereci-lhe o livro do Eça de Queirós que, então, estava a ler e os seus olhos expressaram uma gratidão que nunca mais vou esquecer)

vida de vidro disse...

Também não acredito que seja uma escolha voluntária. Acredito que a vida os empurra para essa situação. Desemprego, droga, doença, sei lá mais o quê.
Gostei, da foto e do texto. **

Zé Gomes disse...

Talvez Luís...

Amabilidade sua, Maria...

Adorei o presente Minda...

Eu também não, Vida de Vidro...

Anônimo disse...

Belas fotos e textos. Espreito via Vida de vidro. Curiosidades.