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sábado, 19 de março de 2022

Impotência Diária...


«Já abriu mais um hotel para cães. E este é mesmo de cinco estrelas.»



A mulher dizia isto com um orgulho desmedido. Talvez até tivesse lá dentro "uma escola", onde até os quisessem obrigar a falar... esquecida que o melhor que eles tinham era serem mesmo bons ouvintes e limitarem-se a rosnar, quando a "mostarda" lhe chegava ao faro...

Olhava para a cadelita, que tinha vestida por cima do pelo uma espécie de saia cor de rosa, com folhos e um laçarote na cabeça para fazer "pandan", com um misto de emoções.

Não sabia se devia rir ou chorar, farto de saber que a estupidez humana raramente tem limites...


quinta-feira, 18 de março de 2021

O Medo, o Vazio...

 É quase bizarro, ver o café vazio.


O medo tomou conta das nossas vidas. 

Sinto falta das vozes das pessoas, do barulho das chávenas, dos passos para trás e para a frente das empregadas.

Sinto falta da confusão diária...


quarta-feira, 29 de maio de 2019

Encontros Quase Diários


Passo à tua loja, quase todos os dias. A culpa é tua, pois ela fica no centro da cidade.



Já não trocamos os olhares de há vinte anos, mas percebemos que a indiferença ainda não chegou. Mas não voltámos a trocar uma palavra.

Nós humanos somos os animais mais estranhos que andam por aqui...

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

A Nota na Mesa de Cabeceira...


Espero nunca chegar a tanto.


Antes de deixar o teu quarto, colocar uma nota na mesa de cabeceira.

Mas às vezes bem merecias. O que devia ser prazer, parece ser fardo. 

Talvez precises de um pires de tremoços ou pevides e depois a nota, que fazia parte das histórias do Juvenal e era sinal de adeus. 

Sim, se não sabes ficas a saber: uma nota de dinheiros, significa não voltar mais...

terça-feira, 27 de junho de 2017

Encantavas-me e Assustavas-me com a tua Rebeldia...


Tanto me encantavas como me assustavas com a tua rebeldia. Todos diziam que saías à tua avó.


Sim, essa mulher deslumbrante, que foi a primeira da Vila a conduzir um automóvel e a ser demasiado independente, ao ponto de assustar quase todos os pretendentes...

O teu avô foi o único que teve coragem de "enfrentar a fera". Talvez pensasse que a podia domar, mesmo que lhe parecesse uma tarefa impossível. 

Contra todas as previsões foram felizes, tiveram seis filhos e 10 netos.

Tu não a imitaste neste campo. Dois casamentos, zero filhos e muitas dores de cabeça...

Cruzámos-nos na semana passada. Piscaste-me o olho e eu acenei-te. Depois saltaram as perguntas do costume: «quem é, quem é...» E eu disse apenas o teu nome, «é a Dulce».

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Apartamento com Vista para o Sol


O orgulho do nome caiu em desgraça no fim da adolescência, quando começaram a gozar com a parte "da cunha", essa instituição nacional, que os alemães e suecos fingem ser uma invenção e prática dos povos sulistas.



Foi remédio santo. Cresceu e esqueceu o "da cunha", que só usa nas reuniões de famílias com pergaminhos, que sente serem uma coisa "a brincar". Sim, brincar aos ricos falidos, que vivem em apartamentos citadinos mas falam das quintas que nunca conheceram e das casas de verão.

Mesmo assim ela e as amigas continuam com as mãos cheias de aneis, que só não são verdadeiros porque cada vez há mais gatunagem nas ruas...

sábado, 15 de outubro de 2016

Às Vezes Apetece-nos Fugir, mas não Conseguimos...


Às vezes queremos fugir, mas não conseguimos...


Foi o que me aconteceu quando te vi sentada na esplanada, a carpir a solidão dos quarenta ou outra coisa qualquer. 

A última vez que conversámos ficámos assim para o chateado. Pelo menos nunca mais telefonaste ou fizeste-te aparecida nas ruas que percorriamos.

Acho que queria evitar qualquer cena triste, qualquer provocação, ou até agressão.

Nós humanos somos mesmo esquisitos. Ou estúpidos, parece-me que fica melhor.

Mas ainda bem que não mudei de passeio, porque assim que me viste sorriste, não sei de quê, mas era de qualquer coisa boa. E não da nossa última conversa. Acabei por beber o café na tua mesa. Não falei muito mas ouvi bastante. Precisavas muito de falar, de dizer mal de tudo e de todos (desta vez escapei...).

O mais estranho foi comportares-te como se nunca nos tivéssemos chateado, como se estivéssemos ali no dia anterior, com a mesma conversa de "partir isto tudo".

terça-feira, 12 de abril de 2016

Cartas que se Perderam no Tempo


Encontrámos-nos numa superfície comercial, eu com um carrinho de plástico pequeno e tu com dois grandes acompanhada pelo resto da família, um gajo e dois rapazes.

Olhámos um para o outro e trocámos um sorriso. Não sabia ainda quem tu eras, apenas que me eras familiar. Já num outro corredor, consegui recuar mais de vinte anos e oferecer-te um nome e tudo.


Estava na peixaria quando me apareceste por detrás, desta vez sozinha e com vontade de falar, enquanto as funcionárias tiravam as tripas e as escamas ao peixe.

Trocámos meia dúzia de banalidades até me disseres que ainda tinhas as minhas cartas guardadas na casa dos teus pais. Eu sorri, incapaz de dizer alguma coisa sobre a tua correspondência, que se perdera no tempo. Não sei onde estarão. Talvez em alguma caixa de papelão no sótão dos meus pais, se entretanto não viajaram para algum ecoponto.

Depois apareceram os teus filhos e voltámos a ser as outras pessoas que nos tornámos...

sábado, 19 de setembro de 2015

É a Coltura Estúpido!


Às vezes penso que sou uma espécie de acompanhante cultural.


Telefonas-me e convidas-me para ir ao teatro, cinema ou à inauguração de uma exposição.
Sei que também já me convidaste para ir a um certo bar, e eu recusei.

Talvez devesse "pôr mais fichas"...
Não sei. Sabemos menos de nós e dos outros do que pensamos.

Embora já tenha chegado à conclusão que ser "guia cultural" pode ser menos prazenteiro, mas não deixa de ser também mais cómodo e barato.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Ambições e Enganos


Pensava que tinha acontecido uma coisa e soube hoje que fora exactamente o contrário.


Depois da separação, ela andou um pouco à nora até aparecer um fulano vulgar, que a levou à certa. Pensava que ele devia ter dinheiro (e ele dizia que sim...), mas vim a descobrir que passou o tempo todo a viver à custa da mulher que fingia amar e a quem fez uma coisa do teatro, pediu-a em casamento, de joelhos, numa sessão pública (talvez para ser mais convincente), mas até os anéis de noivado foram pagos por ela (ele dizia que tinha as contas congeladas por o divórcio ainda estar a decorrer...).

Ela parecia-me esperta e pensei que estava a tentar ficar bem, até por continuar desempregada e saber que o subsídio não ia durar sempre...

Mas quando a história acabou, ficou com menos dinheiro que no seu início (até lhe pagou jantares e as flores que ele lhe oferecia), ou seja foi levada à certa.

Ele deve andar por aí, a fazer a corte a mais alguma mulher próxima do desespero, a quem oferece o ombro e mais qualquer coisa.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Nem Todas Eram de Plástico


Muitas quase que tinham selo do embrulho.


Não eram todas. 

Mesmo as que eram de plástico, não eram marionetes. Era apenas uma profissão, uma questão de sobrevivência.

Olhava-as e sabia que sofriam muito mais que nós, porque a beleza feminina continua a ter muito que se lhe diga.

Pelas conversas que ia escutando, percebia que o que há mais por ai são homens que olham para mulheres como meros objectos de satisfação visual. Normalmente andam com os bolsos cheios de notas.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

A Beleza e o Mistério da Noite


Esperava-te quase submerso no meio do nevoeiro, mas quando te via, aparecia, porque sabia que tinhas medo das surpresas que apareciam a cavalo da noite.


Durante anos fiz aquele caminho solitário, pois raramente me cruzava com quem quer que fosse.

Mas gostava de andar dentro da noite, de dizer olá aos candeeiros e de sonhar de olhos abertos.

Queria muito fazer um filme nocturno... com uma mulher como tu e também com bandidos, daqueles que usam armas de plástico...

Às vezes penso em ti, talvez por não saber em que Cidade habitas, que ruas percorres e etc.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O Nosso Miradouro


Aquele foi o nosso miradouro.




Foi com surpresa que te vi a tirar retratos, daquele lugar, tão especial...

Uma surpresa agradável, claro.


terça-feira, 15 de maio de 2012

A Solidão do teu Olhar


Olhei-te e fiquei parado alguns segundos, como se tivesse sido enfeitiçado pelo teu olhar.


Houve alguém que passou e simpaticamente deu-me um safanão, para que percebesse que estava parado no meio do passeio.

Estavas acompanhada, mas continuavas tão só. Quis muito entrar, agarrar-te o braço e devolver-te à vida, à rua.

Mas limitei-me a continuar a marcha, sem deixar de olhar para trás, como um adolescente perdido...

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Tentei Desembrulhar-te



Estavas composta demais.
Desde o cabelo ao vestido, havia por ali apertos a mais.

Foi por isso que imaginei como serias com o cabelo solto e com uma roupa leve...

domingo, 13 de janeiro de 2008

Pés em Janeiro


Janeiro sempre foi um mês estranho...

o começo de quase nada,
a esperança de quase tudo...

O frio, com água ou neve,
as noitadas,
as madrugadas,
as ruas sós...


As manhãs,
o perfume das namoradas,
das conhecidas, das outras...
sonhadas ou inventadas...

Janeiro bem podia acabar,
ou mudar de nome...

domingo, 26 de agosto de 2007

Nova Iorque Com Sotaque das Ilhas


É do senso comum dizer-se que os portugueses conhecem-se em todo o lado.
Senti que em Nova Iorque não era bem assim.
Por aquelas bandas as pessoas querem é ser americanas...
As raízes que se danem! Querem é ser cidadãos da pátria do Bush.
O que não esperava era encontrar tantos descendentes de açoreanos.
Espantou-me que não conhecessem as ilhas, e pior, não estarem muito interessados em lá voltar, mesmo de férias...
Não valeu de nada eu dizer que aquilo era um paraíso.
Era o tal espírito americano a funcionar, mais uma vez...
Também já não são pescadores de baleias ou de outra coisa qualquer.
Preferem ter os pés em terra firme, nem que para isso tenham de ser lavadores de janelas, funcionários de restaurantes manhosos ou trabalhadores da construção civil...

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Olá Nova Iorque


Nova Iorque é única...
Não são apenas os prédios que arranham o céu.
Nem as pessoas de tantas cores, credos e feitios...
Muito menos os carros que enchem as avenidas...
É difícil explicar o fascínio...
Acho que é o todo,
Estranhamente, ou não,
Toda a complexidade urbana parece resolvida.
O facto de estar rodeada de água, também ajuda...
Não sei se posso e deva voltar.
Dizem que há sempre uma segunda vez, mas não sei...