Parabéns linda.
Hoje é o teu dia.
cem anos passaram num instante.
"Se tivesse que me descrever, diria que sou uma pessoa à procura de palavras e que às vezes as encontra..." (Dinis Machado)
Maio tem tantas coisas bonitas.
Não é só "andar", é também "sentir".
Sim sentir o Maio a amadurecer...
Os mitos são assim.
Normalmente deixam-nos cedo demais.
E daqui uns tempos descobrimos que nasceste há cem anos...
Não foi agora que foste embora.
Na época ainda paravas o trânsito em qualquer estrada do mundo.
Desististe de ser "mulher-objecto", de ser "mulher-desejo".
Mas ninguém te roubou ou rouba, o histórico e inesquecível, BB...
Não sei porquê, mas não quis "comprar-te" os teus segredos.
Sorriste, a tentar o encantamento do costume, quase a pedir uma nota. Sim, eras lá mulher para moedas...
A custo, fingi-me desencantado.
E lá fiquei sem saber um só segredo teu...
Entrámos naquela casa abandonada, para ter uma perspectiva diferente da praia e do mar.
O mar da nossa praia era ruidoso, em qualquer estação. Era o mar mais conversador que conhecíamos.
Era por isso que não gostávamos de mares chochos, quase sem ondas e sem um barulho digno de um verdadeiro oceano.
Foi o que nos ficou da infância...
Era Verão e tu estavas no quintal.
Sorri para dentro.
Quando te lembrei desta memória, no quintal da tua avó, sorriste e achaste que a minha memória era estranha.
Eu sabia disso.
Lembrava-me de coisas de que quase ninguém ligava...
Quando se falava da adolescência, fazias sempre cara de caso.
Visitas? Eram raras.
Apenas as primas.
Nunca percebeste o porquê daquela prisão, o medo que os outros tinham do mundo lá fora...
Estavas à minha espera.
Foi mais tempo do que desejavas.
Mas recebeste-me com um sorriso e quase que agradeceste o atraso, por te ter permitido acabar de ler o romance que trazias há vários dias na mala.
Mudar de camisa é demasiado fácil, quando comparada com aquelas coisas que chamamos "mudar de vida".
Lugar esse que pode ser apenas a rua detrás...
Não sei quando começaste a fugir de mim.
Percebi que querias mais do que eu te podia dar.
Era demasiado livre para o teu gosto.
Se pudesses, até na cama, colocavas "algemas". E fechavas vezes de mais a porta da rua por dentro e escondias a chave.
Olho para trás e penso que ninguém te disse, mas o amor é outra coisa, pelo menos para mim...
Tínhamos quase dezoito anos.
Havia tradições estranhas. Ainda há. Nunca conseguimos deixar de ser estranhos.
Fomos quase obrigados a beber aquela pinga quente, que eras capaz de dar a volta à barriga de qualquer um, desprevenido. Ou se insistissemos, num outro copo, ficarmos demasiado alegres.
Acho que só bebemos um copo.
Recordo apenas o teu sorriso iluminado pelo fogo, que te dava um ar mais selvagem, roubando-te a inocência que ainda possuias, enquanto fumavas um cigarro...
Foi tudo tão simples.
Transportavas um polvo que compraste directamente ao pescador da nossa rua, amigo do teu pai.
Olhámos um para o outro, falei da coisa esquisita que transportavas no saco, sorriste e falaste da coisa deliciosa, que a tua avó fazia no forno.
Até as nossas palavras eram simples, sem quererem chegar a lado nenhum.
Chegámos à esquina e despedimo-nos, sem sabermos um nome ou um lugar onde seria possível, continuar aquela conversa que parecia distante dos amores...
O vento é o que recordo do Setembro da minha adolescência, passado rente a um mar cada vez mais vazio de pessoas.
Deixávamos o mar, dávamos uma volta na companhia da lagoa e depois subiamos na direcção à tua casa. Levávamos as bicicletas à mão, trocávamos beijos apaixonados que tornavam aquela subida interminável...
Deixava-te no cruzamento entre o centro da aldeia e a tua casa.
Via-te ficares cada vez mais longe. Olhavas e a acenavas-me de dez em dez metros...
Éramos felizes e sabíamos.
Era adolescente. Não, com dezoito anos, já somos adultos.
Ou pelo menos pensamos que somos...
Havia um filósofo no meu terceiro emprego, conhecido por todos como o "Dóctor", mesmo sem ter qualquer curso.
Todos aqueles que tirou na ruas lisboetas, não contam...
Fazia-lhe confusão a minha inocência, foi por isso que me tentou educar e fazer um "bom malandro".
Nunca o conseguiu, totalmente.
Mas nunca esqueço a sua máxima, curta mas tão verdadeira: "Não te esqueças, nunca. As mulheres querem é namorar, enquanto nós, queremos é foder."
Só não me contou que existam algumas boas excepções...
Outubro durante anos foi o mês mais triste da minha vida.
Não sabia o que havia de fazer com as namoradas de Verão e via-as a escaparem por entre os dedos. A "magia do amor" acabara...
Eram amores que não resistiam ao frio. Provavelmente o problema era meu.
Até que apareceste tu. Ficaste para lá se Setembro.
Em Outubro ainda fomos à praia, agasalhados e abraçados.
E depois tínhamos chá quente à nossa espera na velha casa amarela...
Setembro era diferente (agora é tudo mais igual).
Não sonho contigo, muito, mas ainda te vejo a correr à minha frente, de vestido leve e esvoaçante.
Adorava as tuas caretas.
Acho que gostava de tudo em ti durante o Verão...
Levantou-se cedo. Saiu de casa ainda antes das nove.
Quando a encontrei, perguntei-lhe o que fazia uma artista àquela hora na rua.
Sorriu de forma luminosa, coisa rara nas manhãs. E disse-me apenas bom dia.
Só depois do almoço é que nos encontrámos, no nosso café. E soube que tinha ido a um casting para uma série das américas.
Perguntei-lhe como correra. Não sabia. Nunca sabe.
Só depois de receber o telefonema da agência é que fica a saber se sim ou não. Disse que é sempre assim.
Acendeu um cigarro e disse que depois de mais de uma centena de castings, as perspectivas são sempre baixas. Tudo o que vier é ganho, mas não adianta querer ultrapassar o tempo nem ter demasiadas esperanças.
Não lhe disse, mas continuo sem saber como é que há tanta gente por aí que quer ser artista...