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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Olhares Vagabundos...


Pediste-me lume.

Eu como todos os antigos amantes, ando quase sempre com uma caixa de fósforos no bolso.



Agradeceste.

Percebi que sonhavas acordava, estavas distante.

Foi por isso que imaginei que andavas por ali, a fugir, ou à procura, de um amor antigo...


segunda-feira, 29 de maio de 2017

O Gosto de Sair Para a Rua Sozinha...


Não me incomodava por aí além essa sua mania pouco feminina de andar sozinha pela rua.


Mas era estranho o seu gosto de sair de casa e dizer que ia dar uma volta pelo mundo...

Chamava-lhe vagabunda e ela sorria. Outras vezes chamava-me e pedia-me para colar o meu corpo ao dela e dizer que a amava.

E depois partia...

Hoje seria uma maluquice muito mais perigosa, por que fomos perdendo as ruas...

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

O Sol de Outono


O Sol de Outono ainda é capaz de nos aquecer o coração, se estivermos no lugar certo, à hora certa.


Só percebi que eras quase bonita, quando baixaste a guarda que te protegia do Sol. A tua mão cheia de anéis substituía os óculos escuros.

Continuei a andar e entrei no café. Seguiste-me os passos e não foste para muito longe nem ficaste de costas.

Trocámos olhares distraídos. Percebi que os teus olhos eram claros e estavas cada vez menos distante.

Tinha prometido a mim mesmo que não metia conversa com ninguém num café. Isso era coisa do século passado.

Infelizmente também deixara de ser permitido fumar nos lugares por onde me perdia. Foi por isso que nunca mais andei com uma caixa de fósforos no bolso. Tu devias fumar. Não sei porquê, mas descobri em ti algo que me dizia que eras uma fumadora.

Ainda peguei numa moeda, mas faltou-me a coragem para jogar "cara ou coroa"...

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Ambições e Enganos


Pensava que tinha acontecido uma coisa e soube hoje que fora exactamente o contrário.


Depois da separação, ela andou um pouco à nora até aparecer um fulano vulgar, que a levou à certa. Pensava que ele devia ter dinheiro (e ele dizia que sim...), mas vim a descobrir que passou o tempo todo a viver à custa da mulher que fingia amar e a quem fez uma coisa do teatro, pediu-a em casamento, de joelhos, numa sessão pública (talvez para ser mais convincente), mas até os anéis de noivado foram pagos por ela (ele dizia que tinha as contas congeladas por o divórcio ainda estar a decorrer...).

Ela parecia-me esperta e pensei que estava a tentar ficar bem, até por continuar desempregada e saber que o subsídio não ia durar sempre...

Mas quando a história acabou, ficou com menos dinheiro que no seu início (até lhe pagou jantares e as flores que ele lhe oferecia), ou seja foi levada à certa.

Ele deve andar por aí, a fazer a corte a mais alguma mulher próxima do desespero, a quem oferece o ombro e mais qualquer coisa.

terça-feira, 11 de março de 2014

Março Quente


Lembro-me dos  nossos Marços quentes.



Lembro-me de irmos passear até ao mar e invariavelmente nos despirmos e darmos um mergulho sem qualquer peça de roupa.

Isso não acontecia por sermos adeptos de nudismo, mas apenas porque não traziamos calções de banho e tínhamos a praia toda para nós...

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A Vida Amarga


A vida amarga,
não foi tua escolha,
muito menos a rua que te acolhe,
os lençóis de papelão,
ou os filhos que não conheces
e não te amam...
a vida amarga-te,
principalmente no Inverno
que te obriga a beber mais um trago
para esqueceres as dores nos ossos
e esse mal crónico que te arrefece o coração.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Praia? Não. Obrigado!

Não me recordo de uma praia sem gente, neste litoral, invadido por todas as interioridades, a partir de Junho.
É assim desde a infância (malditas Costa da Caparica e Carcavelos).
Esperem, lembro-me de uma, mas já não é...
Onde antes existiu um areal quase deserto, com apenas um barracão para pescadores. Era preciso descer as pedras, agora semearam lá umas escadas amarelas e azuis e aquilo tornou-se moda surfista, até de banheira.

Pois bem, para piorar as coisas, como sou branco e fininho, tenho vergonha de andar de calções, de me misturar com os hércules e as boas e sexis, vestidos e vestidas apenas com as modernas parras da eva e do adão.
Ainda visitei algumas praias à noite, com gente a dar música, petiscos e bebidas fortalhaças. Mas aquela confusão incomodava-me. Pensei: «para quê ir para a confusão, se posso entrar nos melhores bares de Lisboa, tão confortáveis e sem as enchentes do costume?»
As minhas férias? Tiro-as no Inverno e na Primavera, sem neve e sem praia. Prefiro viajar, conhecer mundos, cidades e pessoas normais, mais ou menos vestidas.

Praia? Não. Obrigado!

quarta-feira, 28 de maio de 2008

«Ainda Não me Falta a Memória»


Há coisas que só têm graça ao vivo, contadas perdem sempre mais de metade da piada.
O meu colega de trabalho, Joaquim Corça, à beira da reforma, tem saídas únicas.
A última foi ontem ao almoço, numa mesa de amigos, bem regada, quase ao lado de outra, muito bem frequentada por três mulheres, bonitas e maduras.
O Manecas entrou com ele, perguntando-lhe se já precisava de "viagra" para dar assistência àqueles aviões.
Joaquim sorriu, antes de dizer com orgulho: «Já sou avô e vou para os sessenta, mas ainda não me falta a memória, tanto numa como noutra cabeça.»
Risada geral, como calculam.
As mulheres da vizinhança perceberam que eram o assunto da sobremesa, porque também acompanharam a parte doce da refeição e os cafés com sorrisos matreiros, embora mais disfarçados que os nossos, como convém, numa mesa de senhoras.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Gosto da Noite


Gosto da noite, porque não tem sol, é sempre mais fresca e escura,
Gosto da noite, porque tem poucas pessoas nas ruas e é mais silenciosa,
Gosto da noite, porque quase que não se mexe, é mais calma,
Gosto da noite, porque as mulheres têm os olhos mais brilhantes e o corpo mais roliço,
Gosto da noite, porque gosto da luminosidade dos candeeiros,
Gosto da noite, porque sim...
A fotografia de Alfama é de Eduardo Gageiro

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Escolher a Rua Como Morada


Nunca é uma escolha voluntária, é quanto muito um voluntariado forçado...
Mas o que é facto, é que o clube dos "sem abrigo", é cada vez mais numeroso nas ruas de Lisboa.
Grande parte das pessoas com quem nos cruzamos têm idade avançada e são na maioria, homens, sem presente, sem futuro... e que fingem não ter passado.
Os mais jovens, são quase todos toxicodependentes. Sobrevivem com uma única preocupação, arranjar dinheiro para comprar um quarto de grama do "elixir da falsa felicidade".
Talvez sejam a melhor caricatura da sociedade actual, cada vez mais egoísta, individualista e solitária...
Às vezes pergunto: «O que pensarão as suas famílias, desta escolha? Aprovam? São indiferentes? Fingem não saber de nada?»
É difícil concluir o que quer que seja.
O Estado e muitas instituições de carácter social lembram-se deles apenas no Natal.
Eles também se devem lembrar bastante desta época, porque além de lhe oferecerem banho, roupa, comida... levam com toneladas de hipocrisia em cima.

Sei que este texto não é de Primavera, é mais de Outono ou Inverno... a culpa foi da fotografia de Arnaldo Sousa, do homem deitado no parapeito das escadas do Teatro D. Maria II, no Rossio...