Parabéns linda.
Hoje é o teu dia.
cem anos passaram num instante.
"Se tivesse que me descrever, diria que sou uma pessoa à procura de palavras e que às vezes as encontra..." (Dinis Machado)
Os mitos são assim.
Normalmente deixam-nos cedo demais.
E daqui uns tempos descobrimos que nasceste há cem anos...
Tenho saudades do tempo em que quase fomos amantes.
Há quem se encontre para satisfazer os seus desejos físicos num motel e há quem prefira encontrar-se antes num restaurante e comer uma refeição bem acompanhado...
Preferimos, uma, duas, três, quatro, cinco vezes... entrar em casas de pasto. Apesar dos nossos olhares e das nossas outras vontades, não quisemos dar o tal outro passo.
Não quisemos quebrar o encanto proporcionado por uma boa conversa, acompanhada de uma boa refeição. Estávamos de tal maneira habituados aquela forma de convívio, menos ardente, mas muito mais aberta, descontraída e alegre, que nunca demos o passo que chamam "seguinte".
Depois apareceu o covid e roubou-nos os restaurantes e as conversas...
Quando tudo voltou ao chamado "normal", apareceram outras pessoas e perdemos o caminho que era só nosso.
Não te voltei a telefonar, depois de te desculpares com o trabalho e dizeres que depois conversávamos e nunca mais existir o tal "depois".
Mesmo que saiba que a água dos rios não anda para trás, contínuo com saudades do tempo em que quase fomos amantes...
Foste embora mas deixas saudades, a quem gosta de sorrisos bonitos e de mulheres atrevidas.
Talvez fosse no "Aconteceu no Oeste". Talvez fosse num outro filme qualquer, menor. Não sei.
Sei que gostava de ti em todos os filmes, mesmo aqueles manhosos.
Ainda bem que não eras muito selectiva...
Entrámos naquela casa abandonada, para ter uma perspectiva diferente da praia e do mar.
O mar da nossa praia era ruidoso, em qualquer estação. Era o mar mais conversador que conhecíamos.
Era por isso que não gostávamos de mares chochos, quase sem ondas e sem um barulho digno de um verdadeiro oceano.
Foi o que nos ficou da infância...
Era Verão e tu estavas no quintal.
Sorri para dentro.
Quando te lembrei desta memória, no quintal da tua avó, sorriste e achaste que a minha memória era estranha.
Eu sabia disso.
Lembrava-me de coisas de que quase ninguém ligava...
Quando se falava da adolescência, fazias sempre cara de caso.
Visitas? Eram raras.
Apenas as primas.
Nunca percebeste o porquê daquela prisão, o medo que os outros tinham do mundo lá fora...
Não sei quando começaste a fugir de mim.
Percebi que querias mais do que eu te podia dar.
Era demasiado livre para o teu gosto.
Se pudesses, até na cama, colocavas "algemas". E fechavas vezes de mais a porta da rua por dentro e escondias a chave.
Olho para trás e penso que ninguém te disse, mas o amor é outra coisa, pelo menos para mim...
Tínhamos quase dezoito anos.
Havia tradições estranhas. Ainda há. Nunca conseguimos deixar de ser estranhos.
Fomos quase obrigados a beber aquela pinga quente, que eras capaz de dar a volta à barriga de qualquer um, desprevenido. Ou se insistissemos, num outro copo, ficarmos demasiado alegres.
Acho que só bebemos um copo.
Recordo apenas o teu sorriso iluminado pelo fogo, que te dava um ar mais selvagem, roubando-te a inocência que ainda possuias, enquanto fumavas um cigarro...
Foi tudo tão simples.
Transportavas um polvo que compraste directamente ao pescador da nossa rua, amigo do teu pai.
Olhámos um para o outro, falei da coisa esquisita que transportavas no saco, sorriste e falaste da coisa deliciosa, que a tua avó fazia no forno.
Até as nossas palavras eram simples, sem quererem chegar a lado nenhum.
Chegámos à esquina e despedimo-nos, sem sabermos um nome ou um lugar onde seria possível, continuar aquela conversa que parecia distante dos amores...
O vento é o que recordo do Setembro da minha adolescência, passado rente a um mar cada vez mais vazio de pessoas.
Deixávamos o mar, dávamos uma volta na companhia da lagoa e depois subiamos na direcção à tua casa. Levávamos as bicicletas à mão, trocávamos beijos apaixonados que tornavam aquela subida interminável...
Deixava-te no cruzamento entre o centro da aldeia e a tua casa.
Via-te ficares cada vez mais longe. Olhavas e a acenavas-me de dez em dez metros...
Éramos felizes e sabíamos.
Era adolescente. Não, com dezoito anos, já somos adultos.
Ou pelo menos pensamos que somos...
Havia um filósofo no meu terceiro emprego, conhecido por todos como o "Dóctor", mesmo sem ter qualquer curso.
Todos aqueles que tirou na ruas lisboetas, não contam...
Fazia-lhe confusão a minha inocência, foi por isso que me tentou educar e fazer um "bom malandro".
Nunca o conseguiu, totalmente.
Mas nunca esqueço a sua máxima, curta mas tão verdadeira: "Não te esqueças, nunca. As mulheres querem é namorar, enquanto nós, queremos é foder."
Só não me contou que existam algumas boas excepções...
As castanhas continuam a saber bem com o frio.
Mesmo que as maquinetas sejam diferentes e já não se embrulhem as castanhas, com as folhas das desaparecidas páginas amarelas, é como se andasse atrás no tempo.
E nem o fumo é desagradável...
Hoje bebi mais do que devia.
Não foi por ser o mês de São Martinho, que o fiz. O mais curioso foi o sabor do vinho me ter recordado da primeira vez que bebi vinho tinto, quente, à volta de uma fogueira. Devia estar no começo da adolescência e penso que terá sido num daqueles madeiros que ficavam a arder do Natal até ao Ano Novo.
Mas não tenho certezas. Também não te vi a duplicar (como a imagem sugere).
A única certeza é de que o vinho tinto de hoje é quase todo ele poderoso, de 14 graus para cima.
Outubro durante anos foi o mês mais triste da minha vida.
Não sabia o que havia de fazer com as namoradas de Verão e via-as a escaparem por entre os dedos. A "magia do amor" acabara...
Eram amores que não resistiam ao frio. Provavelmente o problema era meu.
Até que apareceste tu. Ficaste para lá se Setembro.
Em Outubro ainda fomos à praia, agasalhados e abraçados.
E depois tínhamos chá quente à nossa espera na velha casa amarela...
Setembro era diferente (agora é tudo mais igual).
Não sonho contigo, muito, mas ainda te vejo a correr à minha frente, de vestido leve e esvoaçante.
Adorava as tuas caretas.
Acho que gostava de tudo em ti durante o Verão...
Ontem vi a "Bela da Aldeia".
Tinham passado mais de trinta anos. Curiosamente, continuava bela. a espaços. O meu primo disse que ela estava muito "estragada". Não concordei nada.
Mas eu era de outro mundo, gostava mais de rugas que de operações plásticas.
Olhámo-nos nos olhos por momentos e sorrimos. O homem que a acompanhava devia ser o marido. Também me olhou, mas sem sorrisos.
Depois viajei no tempo... Foi bom reencontrar-nos quando éramos mais inocentes e espontâneos.
A vida a espaços pode ser bela.... espaços curtos, eu sei...
Estava a escrever para, e sobre ti.
Nunca percebi porque razão nunca fomos um casal a sério.
Medo? Não sei...
Talvez achasse que não era vida para mim, ser o homem de uma fadista. Sim, era demasiado independente para ter de esperar por ti no começo da manhã.
E também não gostava de ver tantos homens colados à tua voz, ao teu rosto e ao teu corpo, enquanto cantavas... Talvez por saber que tinhas de ser simpática para eles, porque era bom para o negócio...
Somos tão complicados, mesmo quando a vida pode ser simples...
Nos temos em que ainda era um rapaz ingénuo, fingia que o acaso se "fabricava"... Mesmo quando percorria os caminhos do regresso a casa da Carla e fingia surpresa, ao encontrá-la.
Carla que embora já tivesse um "amor proibido", por esta ou aquela razão, sorria de felicidade quando nos encontrávamos e fazia questão que a deixasse à porta de casa.
Naquele tempo não percebia porque razão alimentava as minhas esperanças para qualquer coisa. Mas era óbvio, que me usava...
O curioso, é que só o descobri, muito tempo depois.
Era uma rapariga complicada, a pintora da Rua 13.
Sempre que passo na rua que tem um nome de pessoa mas que sempre foi conhecida pela malta por este número da sorte e do azar, lembro-me dela.
Muito nervosa e arisca, só falava sobre livros e artes. Caminhava para os trinta e não se lhe conhecia um relacionamento, masculino ou feminino.
Um dia calhou beber mais que a conta e escolher-me como confidente.
Fiquei a saber quem era mãe (à época uma jornalista conhecida, que ela detestava, e foi por isso que aos 14 anos foi viver com o pai, publicitário e artista plástico quando lhe apetecia).
Não se arrepende nem um pouco da decisão. Detestava viver longe do pai e não aceitava que a mãe trouxesse tantos homens diferentes para dentro do seu quarto, mesmo que apenas conhecesse a voz da maioria.
O pai não era um homem de afectos, mas era bom e inteligente. Ajudou-a a crescer, levava-a a museus e também visitavam ateliers de amigos pintores. Mas o melhor de tudo, era a pequena casa ser só dos dois. Enquanto viveram juntos, nunca levou para o seu quarto uma mulher.
Apeteceu-me dizer-lhe que somos diferentes e temos necessidades diferentes, mas aquela noite era só para ouvir...