terça-feira, 12 de abril de 2016

Cartas que se Perderam no Tempo


Encontrámos-nos numa superfície comercial, eu com um carrinho de plástico pequeno e tu com dois grandes acompanhada pelo resto da família, um gajo e dois rapazes.

Olhámos um para o outro e trocámos um sorriso. Não sabia ainda quem tu eras, apenas que me eras familiar. Já num outro corredor, consegui recuar mais de vinte anos e oferecer-te um nome e tudo.


Estava na peixaria quando me apareceste por detrás, desta vez sozinha e com vontade de falar, enquanto as funcionárias tiravam as tripas e as escamas ao peixe.

Trocámos meia dúzia de banalidades até me disseres que ainda tinhas as minhas cartas guardadas na casa dos teus pais. Eu sorri, incapaz de dizer alguma coisa sobre a tua correspondência, que se perdera no tempo. Não sei onde estarão. Talvez em alguma caixa de papelão no sótão dos meus pais, se entretanto não viajaram para algum ecoponto.

Depois apareceram os teus filhos e voltámos a ser as outras pessoas que nos tornámos...

domingo, 13 de março de 2016

O Número Enigmático


Recebi uma mensagem e respondi com um enigmático, 35.


Foram os dias que ela demorou a dar sinal de vida.

Demorou mais três a telefonar (desta vez com voz), para desmontar o mistério.

E eu disse-lhe a verdade, que fora o tempo que ela demorara a responder ao meu convite para ir ao fim e voltar.

Não se lembrava de nada disso.

Pudera. Há mulheres que comem doses industriais de queijo. E há também mulheres mais lentas que outras...

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O Verbo Fingir no Feminino


Nos primeiros tempos fingem-se modernas.


O problema é sempre o que vem depois. Volta-se ao antigamente, querem um compromisso. Afinal não acreditam nas "amizades coloridas"...

Tudo é posto em causa. Descobrem que querem um homem a tempo inteiro e não apenas nas horas mortas.
Falam de sinceridade, de fidelidade e outras coisas que rimam com verdade.

Quando já somos gente viajada, não nos incomodamos muito. 

Estamos fartos de saber que a mentira sempre foi meio caminho para qualquer coisa. de parte a parte.

Só elas fingem não saber que a partir dos trinta é proibido falar em inocência.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

És o Inverno (Aliás, Inverna...)


Telefonaste-me para eu aparecer, esquecida da chuva que caía.


Lembrei-te. Nada que te incomodasse. Disseste que havia chapéus para esse problema e botas de lona para as poças de água.

Obrigaste-me a sorrir, na tua urgência de me falares de uma coisa importante, daquelas que não se dizem ao telefone (sim eles gravam tudo, insististe tu).

E depois apareceste-me sem chapéu e sem botas... 

Talvez também precisasses de uma constipação.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

«Não. Não tenho carro.»


Menti. Gosto de mentir.


Disse à moçoila loura que não tinha carro, depois de uma tentativa frustrada de "engate".
Talvez sejam resquícios de uma educação machista, mas não gosto de mulheres descaradas, capazes de subirem a saia e baixarem o decote enquanto nos tentam seduzir.

Para ela depois me ver desaparecer  na viatura, ainda por cima bem acompanhado. Talvez tenha pensado que o carro era dela. Ou então ficou a saber que quando quero, sou mentiroso.

Não tenho pachorra para gente interesseira. Nunca tive. Agora a coisa está pior, está no negativo.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Um Chá e um Doce


Gostei de tomar chá contigo.


Gostei de dar a volta às nossas vidas, com um sorriso traquina.

Ficámos quase a saber os nossos segredos, quase.

Talvez seja da aproximação de ambos do que chamam idade da sabedoria.

E pensar que tudo começou ao vermos em silêncio, quase encostados, o filme de Nanni Moretti, capaz de dar motivos para tantas viagens pela vidinha nossa e dos outros...

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

O Sol de Outono


O Sol de Outono ainda é capaz de nos aquecer o coração, se estivermos no lugar certo, à hora certa.


Só percebi que eras quase bonita, quando baixaste a guarda que te protegia do Sol. A tua mão cheia de anéis substituía os óculos escuros.

Continuei a andar e entrei no café. Seguiste-me os passos e não foste para muito longe nem ficaste de costas.

Trocámos olhares distraídos. Percebi que os teus olhos eram claros e estavas cada vez menos distante.

Tinha prometido a mim mesmo que não metia conversa com ninguém num café. Isso era coisa do século passado.

Infelizmente também deixara de ser permitido fumar nos lugares por onde me perdia. Foi por isso que nunca mais andei com uma caixa de fósforos no bolso. Tu devias fumar. Não sei porquê, mas descobri em ti algo que me dizia que eras uma fumadora.

Ainda peguei numa moeda, mas faltou-me a coragem para jogar "cara ou coroa"...

sábado, 19 de setembro de 2015

É a Coltura Estúpido!


Às vezes penso que sou uma espécie de acompanhante cultural.


Telefonas-me e convidas-me para ir ao teatro, cinema ou à inauguração de uma exposição.
Sei que também já me convidaste para ir a um certo bar, e eu recusei.

Talvez devesse "pôr mais fichas"...
Não sei. Sabemos menos de nós e dos outros do que pensamos.

Embora já tenha chegado à conclusão que ser "guia cultural" pode ser menos prazenteiro, mas não deixa de ser também mais cómodo e barato.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Não me Apeteceu Responder-te


O sms era quase doce, nem parecia teu.


Acho que foi por isso que não te respondi.
Não és a única "croma" difícil...

Sei que às vezes as coisas acabam mal começam.  Pode parecer estranho, mas é o que acontece a todas as coisas que vêm de gente pouco normalizada.

Mesmo assim acho que não devemos mudar. 
Mudar para quê?

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Não Queremos as Mesmas Coisas


É óbvio que não queremos as mesmas coisas.


Já percebi que tens uma vida demasiado certinha. Ou então disfarças bem.

Embora já não esteja na idade da maluquice, não sou de ficar depois do jantar a ver a telenovela. Sou mais de fingir que vou passear o cão, um sujeito invisível que é capaz de me levar para lugares do caraças.

Talvez sejas demasiado "antiga" para o meu gosto. Ou então, simplesmente não te apetece sair do teu canto quente...

terça-feira, 23 de junho de 2015

De Quem Não me Esqueci...


Escrevo por aqui coisas sobretudo de quem não esqueci....
Umas de ontem e outras de quase hoje.


A idade dá-nos alguma serenidade.
E também sabedoria em relação ao mundo nosso e dos outros.

As pessoas mais difíceis são aquelas que levam mais porrada da vida e de quem não sabe amar. 
Tu estás nesses lado. Ainda não me contaste. Se calhar não vais contar. Mas ele fez-te mal, e não foi embora, ainda te assombra o coração.

Há tanta coisa que nos separa de vós, mulheres. Uma delas é a forma displicente com que tratamos as coisas do passado. Inventamos distracções para andarmos longe, mesmo que utilizemos bebidas fortes para mudarmos de continente. 

Mas fazes-me bem. Sorris e falas sem parar, daquilo que queres, claro. 

Se eu te fizesse assim tão bem, talvez não fugisses tanto...

domingo, 31 de maio de 2015

A Matreirice do teu Olhar


Tanta matreirice nesse olhar quente...



Fui disfarçando, fingindo alguma indiferença. Mas quando te deixei à porta de casa não resisti e puxei-te para mim e tentei provar-te a boca.

Fugiste e sobrou-me o pescoço que lambi, quase desolado. Sorriste-me agarrada às minhas mãos. Quase a dizer que quem manda és tu...

Eu sei, as mulheres mandam sempre, mesmo quando dizem não e quase que entram dentro de nós... 

Da próxima vez que nos encontrarmos vou-te dizer que somos velhos demais para sermos namorados, só nos resta mesmo ser amantes.