Estavas à minha espera.
Sentada com um livro na mão.
Foi mais tempo do que desejavas.
Mas recebeste-me com um sorriso e quase que agradeceste o atraso, por te ter permitido acabar de ler o romance que trazias há vários dias na mala.
"Se tivesse que me descrever, diria que sou uma pessoa à procura de palavras e que às vezes as encontra..." (Dinis Machado)
Estavas à minha espera.
Foi mais tempo do que desejavas.
Mas recebeste-me com um sorriso e quase que agradeceste o atraso, por te ter permitido acabar de ler o romance que trazias há vários dias na mala.
Se há coisa que dispensamos, é tanto ódio e injustiça social, no nosso país e por esse mundo fora.
Até porque o mundo nunca esteve tão perigoso como agora, com tantos ditadores a quererem agarrar-se ao poder...
Não sei quem tem a língua mais suja, se nós homens, se elas mulheres.
Numa mesa de mulheres as coisas são diferentes. Pode-se não dizer um palavrão, mas as conversas avançam para todo o lado, e muitas vezes de uma forma profunda.
É por isso que não sei quem suja mais a língua...
Mudar de camisa é demasiado fácil, quando comparada com aquelas coisas que chamamos "mudar de vida".
Lugar esse que pode ser apenas a rua detrás...
Não sei quando começaste a fugir de mim.
Percebi que querias mais do que eu te podia dar.
Era demasiado livre para o teu gosto.
Se pudesses, até na cama, colocavas "algemas". E fechavas vezes de mais a porta da rua por dentro e escondias a chave.
Olho para trás e penso que ninguém te disse, mas o amor é outra coisa, pelo menos para mim...
Tínhamos quase dezoito anos.
Havia tradições estranhas. Ainda há. Nunca conseguimos deixar de ser estranhos.
Fomos quase obrigados a beber aquela pinga quente, que eras capaz de dar a volta à barriga de qualquer um, desprevenido. Ou se insistissemos, num outro copo, ficarmos demasiado alegres.
Acho que só bebemos um copo.
Recordo apenas o teu sorriso iluminado pelo fogo, que te dava um ar mais selvagem, roubando-te a inocência que ainda possuias, enquanto fumavas um cigarro...
Foi tudo tão simples.
Transportavas um polvo que compraste directamente ao pescador da nossa rua, amigo do teu pai.
Olhámos um para o outro, falei da coisa esquisita que transportavas no saco, sorriste e falaste da coisa deliciosa, que a tua avó fazia no forno.
Até as nossas palavras eram simples, sem quererem chegar a lado nenhum.
Chegámos à esquina e despedimo-nos, sem sabermos um nome ou um lugar onde seria possível, continuar aquela conversa que parecia distante dos amores...
O vento é o que recordo do Setembro da minha adolescência, passado rente a um mar cada vez mais vazio de pessoas.
Deixávamos o mar, dávamos uma volta na companhia da lagoa e depois subiamos na direcção à tua casa. Levávamos as bicicletas à mão, trocávamos beijos apaixonados que tornavam aquela subida interminável...
Deixava-te no cruzamento entre o centro da aldeia e a tua casa.
Via-te ficares cada vez mais longe. Olhavas e a acenavas-me de dez em dez metros...
Éramos felizes e sabíamos.
Olho à minha volta e sinto que a malta ainda não percebeu.
Sim, se não mudarmos os nossos hábitos, estamos bem lixados com a nossa vidinha.
Não é preciso ouvir os especialistas, basta sentir todo este calor abrasador no corpo, para perceber que hoje já tarde.
Sim, e se não queremos ser nós a mudar, a natureza vai obrigar-nos a mudar, à força.
Não sei é quantos iremos resistir, até lá...
E agora?
Não me apetece ir à praia.
Comecei a gostar da praia no Outono e no Inverno e nunca mais me habituei a andar, de roupa interior, pela areia.
Não sei se é por já ter uma barriguinha e não ser o "adónis" dos vinte anos.
Mas acho que não. É mesmo por não me apetecer estar num lugar onde se ouvem mais as vozes das pessoas que o mar...
E gosto cada vez menos dos fulanos que ocupam toda a margem com chapéus de sol e nos cortam a vista das ondas...
Talvez esteja a ficar velho...
Era adolescente. Não, com dezoito anos, já somos adultos.
Ou pelo menos pensamos que somos...
Havia um filósofo no meu terceiro emprego, conhecido por todos como o "Dóctor", mesmo sem ter qualquer curso.
Todos aqueles que tirou na ruas lisboetas, não contam...
Fazia-lhe confusão a minha inocência, foi por isso que me tentou educar e fazer um "bom malandro".
Nunca o conseguiu, totalmente.
Mas nunca esqueço a sua máxima, curta mas tão verdadeira: "Não te esqueças, nunca. As mulheres querem é namorar, enquanto nós, queremos é foder."
Só não me contou que existam algumas boas excepções...