Parabéns linda.
Hoje é o teu dia.
cem anos passaram num instante.
"Se tivesse que me descrever, diria que sou uma pessoa à procura de palavras e que às vezes as encontra..." (Dinis Machado)
Maio tem tantas coisas bonitas.
Não é só "andar", é também "sentir".
Sim sentir o Maio a amadurecer...
Abril é liberdade, frescura, beleza, cor...
Os mitos são assim.
Normalmente deixam-nos cedo demais.
E daqui uns tempos descobrimos que nasceste há cem anos...
O cabelo curto fica-te muito bem.
Estavas quase irreconhecível.
Apeteceu-me agarrar-te, abraçar-te, beijar-te o cabelo...
E sussurrar: "estás linda".
Tenho saudades do tempo em que quase fomos amantes.
Há quem se encontre para satisfazer os seus desejos físicos num motel e há quem prefira encontrar-se antes num restaurante e comer uma refeição bem acompanhado...
Preferimos, uma, duas, três, quatro, cinco vezes... entrar em casas de pasto. Apesar dos nossos olhares e das nossas outras vontades, não quisemos dar o tal outro passo.
Não quisemos quebrar o encanto proporcionado por uma boa conversa, acompanhada de uma boa refeição. Estávamos de tal maneira habituados aquela forma de convívio, menos ardente, mas muito mais aberta, descontraída e alegre, que nunca demos o passo que chamam "seguinte".
Depois apareceu o covid e roubou-nos os restaurantes e as conversas...
Quando tudo voltou ao chamado "normal", apareceram outras pessoas e perdemos o caminho que era só nosso.
Não te voltei a telefonar, depois de te desculpares com o trabalho e dizeres que depois conversávamos e nunca mais existir o tal "depois".
Mesmo que saiba que a água dos rios não anda para trás, contínuo com saudades do tempo em que quase fomos amantes...
Não foi agora que foste embora.
Na época ainda paravas o trânsito em qualquer estrada do mundo.
Desististe de ser "mulher-objecto", de ser "mulher-desejo".
Mas ninguém te roubou ou rouba, o histórico e inesquecível, BB...
Não sei porquê, mas não quis "comprar-te" os teus segredos.
Sorriste, a tentar o encantamento do costume, quase a pedir uma nota. Sim, eras lá mulher para moedas...
A custo, fingi-me desencantado.
E lá fiquei sem saber um só segredo teu...
Bebemos mais para esquecer que para recordar.
Normalmente é o amor que nos faz beber para afogar a dor.
A separação quando amamos a sério, é o pior que nos pode acontecer...
Entre os muitos disparates que fazemos, um dos maiores, é tentar afogar as mágoas nas bebidas fortes..
Foste embora mas deixas saudades, a quem gosta de sorrisos bonitos e de mulheres atrevidas.
Talvez fosse no "Aconteceu no Oeste". Talvez fosse num outro filme qualquer, menor. Não sei.
Sei que gostava de ti em todos os filmes, mesmo aqueles manhosos.
Ainda bem que não eras muito selectiva...
Entrámos naquela casa abandonada, para ter uma perspectiva diferente da praia e do mar.
O mar da nossa praia era ruidoso, em qualquer estação. Era o mar mais conversador que conhecíamos.
Era por isso que não gostávamos de mares chochos, quase sem ondas e sem um barulho digno de um verdadeiro oceano.
Foi o que nos ficou da infância...
Era Verão e tu estavas no quintal.
Sorri para dentro.
Quando te lembrei desta memória, no quintal da tua avó, sorriste e achaste que a minha memória era estranha.
Eu sabia disso.
Lembrava-me de coisas de que quase ninguém ligava...
Quando se falava da adolescência, fazias sempre cara de caso.
Visitas? Eram raras.
Apenas as primas.
Nunca percebeste o porquê daquela prisão, o medo que os outros tinham do mundo lá fora...
Estavas à minha espera.
Foi mais tempo do que desejavas.
Mas recebeste-me com um sorriso e quase que agradeceste o atraso, por te ter permitido acabar de ler o romance que trazias há vários dias na mala.
Se há coisa que dispensamos, é tanto ódio e injustiça social, no nosso país e por esse mundo fora.
Até porque o mundo nunca esteve tão perigoso como agora, com tantos ditadores a quererem agarrar-se ao poder...
Não sei quem tem a língua mais suja, se nós homens, se elas mulheres.
Numa mesa de mulheres as coisas são diferentes. Pode-se não dizer um palavrão, mas as conversas avançam para todo o lado, e muitas vezes de uma forma profunda.
É por isso que não sei quem suja mais a língua...
Mudar de camisa é demasiado fácil, quando comparada com aquelas coisas que chamamos "mudar de vida".
Lugar esse que pode ser apenas a rua detrás...
Não sei quando começaste a fugir de mim.
Percebi que querias mais do que eu te podia dar.
Era demasiado livre para o teu gosto.
Se pudesses, até na cama, colocavas "algemas". E fechavas vezes de mais a porta da rua por dentro e escondias a chave.
Olho para trás e penso que ninguém te disse, mas o amor é outra coisa, pelo menos para mim...
Tínhamos quase dezoito anos.
Havia tradições estranhas. Ainda há. Nunca conseguimos deixar de ser estranhos.
Fomos quase obrigados a beber aquela pinga quente, que eras capaz de dar a volta à barriga de qualquer um, desprevenido. Ou se insistissemos, num outro copo, ficarmos demasiado alegres.
Acho que só bebemos um copo.
Recordo apenas o teu sorriso iluminado pelo fogo, que te dava um ar mais selvagem, roubando-te a inocência que ainda possuias, enquanto fumavas um cigarro...