quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A Minha Itália...


Não sei de onde veio esta minha maneira de ser mais próxima os italianos que dos portugueses.


Gosto de falar alto e de contar com a ajuda dos braços e das mãos. Não sei se isto tem alguma coisa que ver com a anedota que me habituei a ouvir desde a infância contada pelo pai, do italiano que caiu ao mar no Mediterrâneo e mesmo sem saber nadar conseguiu chegar a terra... Quando lhe perguntavam como se salvara, mexia os braços e dizia: «parlando, parlando...»

Mas acho que pior que falar alto e ser ajudado pelos braços e as mãos é a minha outra parte, este dizem que também é espanhola, de olhar com as mãos.

Quando gosto de uma mulher, gosto de a sentir, gosto de lhe mexer, de andar com as minhas mãos a descobrir curvas, mesmo que seja apenas nos ombros ou nos braços.

Muitas donzelas não gostam destes toques. Umas têm medo de "desafinar", outras acham que são "peças de fruta", para escolher apenas com os olhos...

Toda esta conversa me fez lembrar a Esmeralda, essa mulher diferente, que não é de ninguém e é de toda a gente, que gosta de ser pesada com os olhos e com as mãos...

sábado, 20 de agosto de 2016

A Outra Itália...


O jantar era quase de família, embora estivesse longe dos velhos tempos.


Quando me chamaram a atenção de que estava a falar alto demais, lembrei-me dos meus "amigos italianos", do bom que é falarmos alto e com as mãos e os braços.

Não podia imaginar que fosse tão importante "o politicamente correcto" numa mesa de amigos e familiares, que uma mulher pudesse ficar tão incomodada com os "trogloditas" que falavam alto e ao mesmo tempo. Ainda por cima se chamava Giovanna (faz questão de assinalar que se escreve com dois enes).

Ainda estranhei mais quando ela começou a dizer maravilhas da cidade de Roma, quando se começaram a contar histórias de viagens...

Foi quando me lembrei que existem as itálias que quisermos, conversar é como fazer filmes ou escrever livros, cada um conta o que lhe apetece. 

quarta-feira, 8 de junho de 2016

A Vingança Servida a Quente


Depois de cinco anos de vida em comum, a partilharem a mesma cama e a mesma casa, pareceu-me estúpido o desabafo  daquela mulher, que a sorrir e a fumar, disse para toda a gente ouvir que o marido cheirava mal.



Não me deve ter visto. Ou então fingiu. Claro que não ia dizer nada ao marido, que tinha saído de casa dois meses antes.

Se ele ali estivesse talvez lhe desse um estalo e era capaz de lixar a vida, como o filósofo que casou com a apresentadora de programas de entretenimento televisivos.

Nós somos uns "toininhos" à beira destas mulheres vingadoras, que são capazes de tudo, por despeito e amor ferido.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

O Álcool Dá Sempre Jeito, em Todas as Idades...


Não são só os adolescentes que precisam de utilizar o álcool como principal elemento de descontracção. 


Foi por isso que desculpei a tentativa de beberes mais que a conta, para conseguires enfiar-te na cama comigo.

Quando te disse que te preferia sóbria, sorriste quase sem jeito.

Só não estava à espera que me contasses muito mais que queria saber da tua vida. Em vez de ficar mais descontraído, senti-me estranho, quando disseste que há catorze meses que não estavas sozinha com um homem.

Fico a pensar que já não tenho idade para histórias difíceis, ou pelo menos finjo...

terça-feira, 12 de abril de 2016

Cartas que se Perderam no Tempo


Encontrámos-nos numa superfície comercial, eu com um carrinho de plástico pequeno e tu com dois grandes acompanhada pelo resto da família, um gajo e dois rapazes.

Olhámos um para o outro e trocámos um sorriso. Não sabia ainda quem tu eras, apenas que me eras familiar. Já num outro corredor, consegui recuar mais de vinte anos e oferecer-te um nome e tudo.


Estava na peixaria quando me apareceste por detrás, desta vez sozinha e com vontade de falar, enquanto as funcionárias tiravam as tripas e as escamas ao peixe.

Trocámos meia dúzia de banalidades até me disseres que ainda tinhas as minhas cartas guardadas na casa dos teus pais. Eu sorri, incapaz de dizer alguma coisa sobre a tua correspondência, que se perdera no tempo. Não sei onde estarão. Talvez em alguma caixa de papelão no sótão dos meus pais, se entretanto não viajaram para algum ecoponto.

Depois apareceram os teus filhos e voltámos a ser as outras pessoas que nos tornámos...

domingo, 13 de março de 2016

O Número Enigmático


Recebi uma mensagem e respondi com um enigmático, 35.


Foram os dias que ela demorou a dar sinal de vida.

Demorou mais três a telefonar (desta vez com voz), para desmontar o mistério.

E eu disse-lhe a verdade, que fora o tempo que ela demorara a responder ao meu convite para ir ao fim e voltar.

Não se lembrava de nada disso.

Pudera. Há mulheres que comem doses industriais de queijo. E há também mulheres mais lentas que outras...

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O Verbo Fingir no Feminino


Nos primeiros tempos fingem-se modernas.


O problema é sempre o que vem depois. Volta-se ao antigamente, querem um compromisso. Afinal não acreditam nas "amizades coloridas"...

Tudo é posto em causa. Descobrem que querem um homem a tempo inteiro e não apenas nas horas mortas.
Falam de sinceridade, de fidelidade e outras coisas que rimam com verdade.

Quando já somos gente viajada, não nos incomodamos muito. 

Estamos fartos de saber que a mentira sempre foi meio caminho para qualquer coisa. de parte a parte.

Só elas fingem não saber que a partir dos trinta é proibido falar em inocência.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

És o Inverno (Aliás, Inverna...)


Telefonaste-me para eu aparecer, esquecida da chuva que caía.


Lembrei-te. Nada que te incomodasse. Disseste que havia chapéus para esse problema e botas de lona para as poças de água.

Obrigaste-me a sorrir, na tua urgência de me falares de uma coisa importante, daquelas que não se dizem ao telefone (sim eles gravam tudo, insististe tu).

E depois apareceste-me sem chapéu e sem botas... 

Talvez também precisasses de uma constipação.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

«Não. Não tenho carro.»


Menti. Gosto de mentir.


Disse à moçoila loura que não tinha carro, depois de uma tentativa frustrada de "engate".
Talvez sejam resquícios de uma educação machista, mas não gosto de mulheres descaradas, capazes de subirem a saia e baixarem o decote enquanto nos tentam seduzir.

Para ela depois me ver desaparecer  na viatura, ainda por cima bem acompanhado. Talvez tenha pensado que o carro era dela. Ou então ficou a saber que quando quero, sou mentiroso.

Não tenho pachorra para gente interesseira. Nunca tive. Agora a coisa está pior, está no negativo.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Um Chá e um Doce


Gostei de tomar chá contigo.


Gostei de dar a volta às nossas vidas, com um sorriso traquina.

Ficámos quase a saber os nossos segredos, quase.

Talvez seja da aproximação de ambos do que chamam idade da sabedoria.

E pensar que tudo começou ao vermos em silêncio, quase encostados, o filme de Nanni Moretti, capaz de dar motivos para tantas viagens pela vidinha nossa e dos outros...

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

O Sol de Outono


O Sol de Outono ainda é capaz de nos aquecer o coração, se estivermos no lugar certo, à hora certa.


Só percebi que eras quase bonita, quando baixaste a guarda que te protegia do Sol. A tua mão cheia de anéis substituía os óculos escuros.

Continuei a andar e entrei no café. Seguiste-me os passos e não foste para muito longe nem ficaste de costas.

Trocámos olhares distraídos. Percebi que os teus olhos eram claros e estavas cada vez menos distante.

Tinha prometido a mim mesmo que não metia conversa com ninguém num café. Isso era coisa do século passado.

Infelizmente também deixara de ser permitido fumar nos lugares por onde me perdia. Foi por isso que nunca mais andei com uma caixa de fósforos no bolso. Tu devias fumar. Não sei porquê, mas descobri em ti algo que me dizia que eras uma fumadora.

Ainda peguei numa moeda, mas faltou-me a coragem para jogar "cara ou coroa"...

sábado, 19 de setembro de 2015

É a Coltura Estúpido!


Às vezes penso que sou uma espécie de acompanhante cultural.


Telefonas-me e convidas-me para ir ao teatro, cinema ou à inauguração de uma exposição.
Sei que também já me convidaste para ir a um certo bar, e eu recusei.

Talvez devesse "pôr mais fichas"...
Não sei. Sabemos menos de nós e dos outros do que pensamos.

Embora já tenha chegado à conclusão que ser "guia cultural" pode ser menos prazenteiro, mas não deixa de ser também mais cómodo e barato.