Não sei quase nada de Maio.
Não percebo de plantas e de flores.
Sei só que é um mês bonito, cheiroso, agradável.
Sim, em parte, isso basta-me.
"Se tivesse que me descrever, diria que sou uma pessoa à procura de palavras e que às vezes as encontra..." (Dinis Machado)
Não sei quase nada de Maio.
Não percebo de plantas e de flores.
Sei só que é um mês bonito, cheiroso, agradável.
Sim, em parte, isso basta-me.
Abril pode ter mais ou menos cravos.
Abril pode cheirar, ou não, a liberdade.
Abril pode ser esperança ou outra coisa qualquer...
Mas por favor, não me falem mais em sonhos de Abril.
Queria sim, mais realidade, mais democracia, mais igualdade.
Levantou-se cedo. Saiu de casa ainda antes das nove.
Quando a encontrei, perguntei-lhe o que fazia uma artista àquela hora na rua.
Sorriu de forma luminosa, coisa rara nas manhãs. E disse-me apenas bom dia.
Só depois do almoço é que nos encontrámos, no nosso café. E soube que tinha ido a um casting para uma série das américas.
Perguntei-lhe como correra. Não sabia. Nunca sabe.
Só depois de receber o telefonema da agência é que fica a saber se sim ou não. Disse que é sempre assim.
Acendeu um cigarro e disse que depois de mais de uma centena de castings, as perspectivas são sempre baixas. Tudo o que vier é ganho, mas não adianta querer ultrapassar o tempo nem ter demasiadas esperanças.
Não lhe disse, mas continuo sem saber como é que há tanta gente por aí que quer ser artista...
Finge que trabalha, das nove às cinco.
Mas é mentira, onde de facto trabalha é em casa, para preparar mais uma noitada no bar do Rui, com canções diferentes, para pessoas diferentes.
Está lá das vinte e duas às duas da matina. E depois casa. Gosta do cansaço que sente e de mal se deita na cama, adormecer de seguida, até ao toque do despertador.
É assim há pelo menos doze anos, desde que o seu casamento acabou, quando a mulher preferiu roubar o marido da prima.
Nunca mais conseguiu ter uma mulher por mais de uma noite.
Escreve muitos poemas sobre essas mulheres, fatais e fatalistas. Mas sabe que nunca mais confiará em nenhuma...
Por muito que nos esforcemos em pensar que sim, há muito tempo que já não existem anos novos.
É tudo ilusão, criada pelo esperto do inventor dos calendários.
Mas todos queremos pensar que sim, vamos mudar alguma coisa, nem que seja no cabeleireiro e no pronto a vestir.
E também podemos mudar o móvel de sala para o lado oposto...
Vamos lá fingir que sim, que começa tudo de novo.
Nada muda em Dezembro.
Nem mesmo as músicas ou os barbudos vestidos de vermelho, cujo trabalho deve ser ligeiramente chato, por muito feliz que se seja.
Os ordenados são duplicados para ver se conseguimos gastar o triplo de outro mês banal.
Quem não gosta de presentes nem de ser empurrado para o que quer que seja, sente-se ligeiramente incomodado com um mês que dura cada vez mais meses (já são pelo menos três...).
Ontem vi a "Bela da Aldeia".
Tinham passado mais de trinta anos. Curiosamente, continuava bela. a espaços. O meu primo disse que ela estava muito "estragada". Não concordei nada.
Mas eu era de outro mundo, gostava mais de rugas que de operações plásticas.
Olhámo-nos nos olhos por momentos e sorrimos. O homem que a acompanhava devia ser o marido. Também me olhou, mas sem sorrisos.
Depois viajei no tempo... Foi bom reencontrar-nos quando éramos mais inocentes e espontâneos.
A vida a espaços pode ser bela.... espaços curtos, eu sei...
"Andar por andar", não é coisa para mulheres, por muito que mintam no começo, no meio ou no fim.
Querem sempre mais que um simples "andar". Foi a conclusão daquele jantar bem comido, bem bebido, bem conversado e bem sorrido.
Eram cinco, os amigos que depois do jantar, conseguiam brincar com as suas vidas amorosas arruinadas, depois de passarem a casamento.
Quem terá inventado essa coisa parva?
Passaram por ali, divórcios, filhos, amantes, pensões... segundas mulheres (há quem goste de navegar no erro...), e até num caso, uma terceira.
Felizmente o bom humor reinou, num ambiente solto e livre, provavelmente por não existirem mulheres por perto (as da cozinha estavam escondidas...).
Não. Aquilo não era música para os meus ouvidos. Foi por isso que me afastei.
Talvez existisse alguma verdade, na parte de que as mulheres adoravam ouvir boas mentiras, das que lhes faziam festas ao ego, deixando-as a sorrir e a sonhar. Mas daí a gostarem de ser enganadas e maltratadas... ia um passo quase de gigante.
Sei muito pouco sobre as mulheres, para conseguir explicar alguns porquês. É por isso que dou poucos palpites.
Mas fico a pensar, que talvez sejam mais vulneráveis que nós, e por isso mesmo, se deixem "embalar" com mais facilidade, pelas "cantigas de bandido", quase sempre adocicadas...
Estava a escrever para, e sobre ti.
Nunca percebi porque razão nunca fomos um casal a sério.
Medo? Não sei...
Talvez achasse que não era vida para mim, ser o homem de uma fadista. Sim, era demasiado independente para ter de esperar por ti no começo da manhã.
E também não gostava de ver tantos homens colados à tua voz, ao teu rosto e ao teu corpo, enquanto cantavas... Talvez por saber que tinhas de ser simpática para eles, porque era bom para o negócio...
Somos tão complicados, mesmo quando a vida pode ser simples...
Nunca deixaste de fumar. Nunca deixaste de beber. Nunca deixaste de cantar.
As casas de fado era a tua primeira casa, mesmo que os teus país não o soubessem, pelo menos nos primeiros anos.
Gostei de te ver, vários anos depois. Gostei de te ouvir cantar, porque continuavas a irradiar paixão e emoção, pela canção de Lisboa.
Passaste por mim sorriste e mexeste no meu ombro, enquanto deixavas um "cartão-bilhete", na minha mão.
Percebi os teus cuidados, estávamos todos acasalados na mesa, embora isso não significasse nada para mim. Podemos estar sozinhos, mesmo estando acompanhados...
Não sabias mas eu estava livre para ti...
Nos temos em que ainda era um rapaz ingénuo, fingia que o acaso se "fabricava"... Mesmo quando percorria os caminhos do regresso a casa da Carla e fingia surpresa, ao encontrá-la.
Carla que embora já tivesse um "amor proibido", por esta ou aquela razão, sorria de felicidade quando nos encontrávamos e fazia questão que a deixasse à porta de casa.
Naquele tempo não percebia porque razão alimentava as minhas esperanças para qualquer coisa. Mas era óbvio, que me usava...
O curioso, é que só o descobri, muito tempo depois.